A Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas em Ontário foi fundada para providenciar uma frente unida de promoção da identidade cultural portuguesa na cultura canadiana. Este editorial é acerca da ACAPO porque esta organização tem estado na vanguarda da promoção da nossa identidade cultural.

A declaração de missão da ACAPO, como descrita no seu website, enumera várias funções com o objetivo de melhorar a integração portuguesa nas comunidades em Ontário. Aqui está o motivo pelo qual a ACAPO foi criada:

  • Assistir na facilitação da integração de todos os indivíduos de origem portuguesa na sociedade canadiana, na província de Ontário.
  • Promover e incentivar o património cultural e histórico dentro do contexto de uma política multicultural no Canadá.
  • Promover e incentivar a interação entre a comunidade portuguesa e outras comunidades étnicas específicas.
  • Analisar problemas que afetam a comunidade luso-canadiana e propor possíveis soluções a indivíduos ou organizações capazes de tratar os assuntos em questão.
  • Representar e defender os interesses da comunidade luso-canadiana com representantes oficiais nos governos português e canadiano.
  • Promover e incentivar a interação e comunicação entre gerações portuguesas-canadianas.
  • Promover a comunicação e cooperação mútua entre organizações portuguesas e organizações de língua portuguesa.
  • Apoiar membros de organizações na preparação de atividades para o seu ano fiscal seguinte.
  • Estabelecer e manter colaboração com outras organizações com metas e objetivos semelhantes.
  • Participar ativamente com organizações cujo trabalho pretende o melhoramento da comunidade portuguesa ou da comunidade de língua portuguesa.

Uma revisão das dez missões, se de facto implementadas, iria constituir uma plataforma na qual a comunidade portuguesa-canadiana poderia crescer e prosperar. Atualmente na lista das organizações da ACAPO, existem cerca de 33 clubes e associações. Existiam mais, mas muitos deles já fecharam devido à falta de membros e/ou fundos. Num futuro próximo, muitos outros poderão encerrar, sofrendo de uma doença que, eventualmente, resultará no desaparecimento da ACAPO. O estado atual da ACAPO merece uma revisão. Se uma palavra fosse usada, poderia dizer-se que a organização está numa desordem total.

Visto de fora, estes são os problemas que parecem afligir a ACAPO:

  • Subfinanciamento. Cada membro paga à ACAPO uma taxa anual de $150.00. Esta quantidade insignificante é insuficiente para pagar a renda num escritório pequeno que é muitas vezes pago pelos fundos pessoais do Diretor Executivo da ACAPO. Como é que uma organização sobrevive quando é continuamente subfinanciada e os seus membros não se parecem importar? Défices contínuos têm atormentado a ACAPO por muitos anos porque gastam para além das suas possibilidades. De um ponto de vista fiscal, a ACAPO não deveria existir.
  • As celebrações da Semana de Portugal transformaram-se em celebrações que duram o mês inteiro. A grande parada de celebração da nossa cultura só acontece graças aos patrocinadores generosos, que realmente cumprem os seus compromissos enquanto outros decidem não honrar os seus. Se por um lado, a parada acontece devido aos vários voluntários e organizações que disponibilizam exposições culturalmente notáveis, por outro as empresas comerciais começaram gradualmente a assumir o comando, mesmo não tendo nada a ver com cultura.
  • Enquanto a parada gera um cenário de orgulho, os excessos de outros eventos, particularmente concertos dispendiosos, providenciam um cenário de falta de conhecimento acerca de negócios. É irresponsável e desnecessário disponibilizar centenas de milhares de dólares em entretenimento gratuito para uma comunidade que lhe dá pouco valor. Tudo carrega um custo e assumir défices financeiros, que a ACAPO não pode suportar, é inaceitável.
  • Na sua maioria, os clubes e associações representam organizações regionais interessadas apenas na sua área de Portugal ou ilhas. O que levanta a questão de como é que isto obedece à declaração de missão? Estes clubes não se relacionam nem se respeitam, e muitas vezes, são liderados por indivíduos que se estão a servir a si próprios, que não têm visão para o futuro e não conseguem ver o plano maior. Eventualmente, as suas posturas divisionistas destroem o sonho que os fundadores puseram em prática. Pessoas pequenas, com mentes pequenas, resultam em ambientes destrutivos onde o sonho de inclusão desaparece devido a jornadas de poder. Por exemplo, considere-se a separação de alguns clubes que, por razões inexplicáveis, não se querem juntar à ACAPO ou querem separar-se.
  • Hoje em dia, os clubes são frequentados sobretudo por pessoas de idade sénior, que num futuro próximo irão garantir o seu falecimento. Os membros acham que não deveriam pagar e esse é o motivo do suicídio financeiro.
  • Neste momento, a ACAPO não tem liderança e ninguém está disposto a chegar-se à frente para levá-la à fase seguinte. Os fundadores da ACAPO devem estar a coçar as cabeças e a perguntarem se a atual colheita de clubes vale a pena os títulos que lhes deram.

Qual a solução?

  • Encontrar pessoas jovens que ainda não tenham sido infetadas com a doença que aflige a ACAPO e deixá-los liderar. Para isto, aos membros excludentes que não aceitam a geração mais jovem, deve-lhes ser pedido que se retirem.
  • Fundir clubes e associações para representar as regiões do país. Um clube para os Açores e outro para a Madeira, e outros quatro para o Continente. Isto resultaria num reforço fiscal que os iria aguentar ao longo dos anos.
  • Para financiar a ACAPO de forma a que possa pagar um Diretor Executivo a full-time e um conselho totalmente funcional, dirigido por diretores devidamente nomeados. Cada clube e associação deveria pagar uma taxa de $3,500.00 por ano, o que ajudaria a gerir esta associação.
  • As celebrações da semana de Portugal deveriam voltar a ser reduzidas a uma semana, e concentradas na parada e em eventos em honra de Camões, dos voluntários, etc. O Jantar de Gala pode prosseguir se for totalmente financiado pelos clubes. Todos os eventos em torno da semana de Portugal deveriam ser organizados por um comité independente de voluntários, que façam parte do público geral e dos clubes.
  • E, finalmente, o Governo de Portugal deveria contribuir para as organizações que promovem a cultura portuguesa, e que tem negligenciado durante tantos anos.

Este editorial, não será uma critica à liderança atual, porque eles têm trabalhado arduamente para manter o navio à tona, sem quaisquer recursos financeiros. O criticismo dirige-se a membros ignorantes, que pouco se importam com a sobrevivência da ACAPO. Deveriam ter vergonha. Graças a Deus ainda existem voluntários que se preocupam em levar para a frente o navio.

É tempo desta comunidade prestar homenagem ao José Maria Eustáquio, mas sugerir, de forma respeitosa, que a ACAPO necessita de novos líderes. E para isso, é necessária coragem.

Manuel DaCosta

Cartoon: Stella Jurgen