Jean Augustine foi a primeira mulher afro-canadiana a ser eleita para a Câmara dos Comuns no Canadá. Em 1993 criou uma nova página na história do país e implantou o mês de fevereiro como o “Black History Month”.
Augustine nasceu nas Caraíbas, na ilha de Grenada, mas emigrou para o Canadá em 1960. “Quando decidi vir para cá, Toronto era o local certo para o ativismo. Não tínhamos carta dos direitos e dos deveres, a carta só surgiu em 1982”, avança.
A luta pela justiça e pela igualdade social começou por ser uma questão pessoal. “Comecei a lutar quando tentei reconhecer o meu grau académico. Eu era professora e na altura os professores não iam para a universidade, tínhamos formação numa escola de professores. Perguntaram-me se tinha o secundário completo e eu disse-lhes que tinha mais do que isso (risos)”, admite.
Entre 1993 e 2006 Augustine foi membro do Partido Liberal da Câmara dos Comuns do Canadá, representando a região de Etobicoke-Lakeshore em Ontário. Foi ministra para o multiculturalismo e o estatuto da mulher entre 2002 e 2004.
Quando chegou ao Parlamento, a pioneira na luta da igualdade percebeu que era importante aprofundar a história do país. “Tinha que fazer algo porque estava sentada ao lado de pessoas que não sabiam de onde os negros vinham. E na altura já íamos na sétima ou oitava geração de negros no país. Nos programas educativos da época não existiam conteúdos sobre a cultura negra na formação do país. As pessoas da minha geração não sabiam que existiu escravatura no Canadá”, explica.
Nos EUA a cultura negra é celebrada desde 1926. O percursor foi o historiador Carter G. Woodson que instituiu a semana da cultura negra na segunda semana de fevereiro. Augustine pensou que fazia sentido criar algo semelhante no Canadá. “Achei que se tivéssemos a atenção do governo federal para este assunto esse seria o mote para que os programas educativos se reestruturassem. A partir daí começámos a falar do peso da cultura negra no país e na importância da diversidade e da inclusão. O tema passou a fazer parte da sala de aula”, justifica.
O primeiro negro a entrar no país foi Mathieu da Costa, um tradutor de Portugal – Açores- que veio acompanhar um explorador francês ao Canadá em 1604. “Se queremos ser uma sociedade inclusiva temos a obrigação de conhecer a nossa história. Só assim é que podemos evoluir. Nós criámos o mês mas a cultura negra deveria ser celebrada todos os dias”, disse.
Actualmente a cultura negra é omnipresente, sobretudo em Toronto. Ou não fosse Toronto a cidade mais multicultural do mundo. A cultura negra está em todo o lado, na música, na arte, no teatro, no cinema, na gastronomia. “Por exemplo o Canada Post dedicou dois selos ao Back History Month. Em breve vamos ter uma mulher negra estampada nas notas de dez dólares. Ainda há muito a fazer mas tivemos progressos incríveis”, sublinhou.
Augustine deixa um conselho às gerações futuras. “Para os mais jovens é extremamente fácil se mobilizarem, sobretudo através das redes sociais. No meu tempo era muito mais difícil. Se queríamos que algo acontecesse tínhamos que fazer chamadas telefónicas (risos)”, esclarece.
Apesar de ter 80 anos, Jean Augustine continua envolvida no ativismo. “Eu digo a mim própria que estou reformada mas se vires a minha agenda para este mês não acreditas (risos). Recebo muitos convites para falar sobre o Black History Month”, confessa.
Augustine critica a postura do presidente dos EUA, Donald Trump, e alerta para o reaparecimento do racismo e da descriminação. “O nosso trabalho nunca está concluído. Basta ver o exemplo do nosso vizinho, dos EUA. Não podemos ser islamofóbicos só porque há terrorismo. Temos que continuar a construir uma sociedade melhor e mais tolerante. As mulheres têm que ter um papel mais activo na sociedade, na política por exemplo”, avisa.
O legado de Jean Augustine vai muito além da introdução do Black History Month. Augustine mudou o curso da história do Canadá, derrubou barreiras e mudou mentalidades.


Written by Joana Leal - Milenio Stadium