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🎾 A HistĂłria das camisolas de bandas e o “Merchandising Musical”

Written by on September 29, 2025

Cortesia Oasis Merchan

Dias antes do Oasis chegar Ă  cidade de Toronto no mĂȘs passado, uma loja pop-up abriu na Queen Street West vendendo produtos relacionados Ă  turnĂȘ. Ao passar por lĂĄ, era possĂ­vel ver filas que se estendiam em duas direçÔes, com fĂŁs comprando de tudo, desde pĂŽsteres (uma pechincha a 35 dĂłlares) atĂ© camisetas (65 dĂłlares) e produtos da Adidas com a marca Oasis (155 dĂłlares ou mais). No show no Rogers Stadium, em 25 de agosto, parecia que metade do pĂșblico estava vestindo roupas do Oasis, enquanto a outra metade estava nas diversas barracas de merchandising.

A logĂ­stica da cadeia de suprimentos para o merchandising do Oasis deve ser tĂŁo complicada quanto a prĂłpria turnĂȘ. Mesmo assim, muitos itens esgotaram rapidamente. ChapĂ©us tipo bucket foram especialmente populares. A banda deve faturar no mĂ­nimo 20 milhĂ”es de libras apenas com a venda de produtos este ano.

(Dado curioso: outro relatĂłrio diz que os fĂŁs do Oasis bebem tanto que a banda conseguiu um acordo para receber 4 libras por cada pint de 8 libras vendida em seus shows no Reino Unido. Isso deve ter sido uma soma impressionante.) Oasis nĂŁo Ă© a Ășnica banda lucrando com merchandising. Metallica e The Who recentemente faturaram milhĂ”es com lojas pop-up. No auge de suas turnĂȘs, dizem que Justin Bieber chegava a faturar 300 mil dĂłlares por noite com vendas de produtos.

Cortesia Oasis Merchan

E a turnĂȘ Eras da Taylor Swift? Estima-se que sĂł em 2023, suas receitas tenham ultrapassado 200 milhĂ”es de dĂłlares. Para toda a turnĂȘ, ela vendeu cerca de 2 milhĂ”es de dĂłlares por show. Extrapolando esse nĂșmero atĂ© o final da turnĂȘ em dezembro de 2025, fica claro que estamos falando de um grande negĂłcio. Mas quem inventou a ideia de merchandising de artistas? Estamos falando de camisetas, programas, pĂŽsteres e todos os itens com logotipo.

O crĂ©dito vai para o empresĂĄrio de Elvis Presley, Coronel Tom Parker. Ele começou a vender produtos relacionados a Elvis em meados da dĂ©cada de 1950, quando fechou um acordo de 40 mil dĂłlares com uma empresa de Beverly Hills. Em poucas semanas, produtos com a marca Elvis estavam por toda parte. Entre os 50 itens estavam camisolas, lenços, tĂȘnis, chapĂ©us e atĂ© batons. O coronel foi astuto o suficiente para vender clandestinamente bottons “I Hate Elvis” para pessoas que nĂŁo eram fĂŁs do Rei do Rock ‘n’ Roll.

Mas foi Brian Epstein, empresĂĄrio dos Beatles, quem realmente inventou a venda moderna de merchandising. Em 1963, ele confiou ao advogado dos Beatles, David Jacobs, a responsabilidade pelo negĂłcio. Jacobs encontrou Nicky Byrne, e juntos emitiram licenças oficiais para empresas que quisessem produzir produtos dos Beatles — em troca de 10% dos lucros. A situação ficou um pouco fora de controle. Uma empresa perguntou se poderia vender ĂĄgua benta dos Beatles a um dĂłlar por garrafa. Disseram nĂŁo. Mas venderam 35 mil perucas dos Beatles por dia. Cem mil bonecos do Ringo foram vendidos em dois dias. E uma empresa em Blackpool recebeu um pedido de 10 milhĂ”es de pedaços de alcaçuz com o selo “The Beatles”.

Em agosto de 1964, os Beatles estavam tĂŁo populares que o custo das licenças subiu de 10% para 46%. Mas, como muitas pessoas agem de mĂĄ-fĂ©, a banda viu muito pouco desse dinheiro. Ainda assim, muita receita foi gerada — para alguĂ©m, pelo menos. Camisetas de bandas se tornaram muito populares nos anos 60, com muitas estampas tie-dye em festivais. Nos anos 70, o AC/DC foi a primeira banda a faturar mais com vendas de merchandising do que com ingressos de shows.

E Ă© aqui que entram os Ramones. Camislas foram fundamentais para que os Ramones durassem 22 anos. Eles nunca venderam grandes quantidades de discos enquanto estavam juntos. O ĂĄlbum mais vendido foi uma coletĂąnea de hits, que mal ultrapassou 500 mil unidades. O que realmente manteve os Ramones foi a venda de camisetas.

Quase ninguém no planeta não viu uma camisola dos Ramones com seu brasão especial. Jå se perguntou quem criou isso? Seu nome era Arturo Vega. Ele nasceu no México e se mudou para Nova York, onde se tornou artista. No meio dos anos 70, conheceu os Ramones. Tornaram-se amigos, e a banda frequentemente ficava em seu loft. Em determinado momento, ele se ofereceu para criar um logo para eles. A inspiração veio após uma viagem a Washington, D.C.

Vega disse, no livro Ramones: An American Band:

“Eu os via como a banda americana por excelĂȘncia. Para mim, eles refletiam o carĂĄter americano em geral — uma agressividade quase infantil e inocente. Pensei: ‘O Grande Selo do Presidente dos Estados Unidos’ seria perfeito para os Ramones, com a ĂĄguia segurando flechas — para simbolizar força e agressĂŁo contra quem ousasse nos atacar — e um ramo de oliveira, oferecido Ă queles que querem ser amigĂĄveis.  Mas decidimos mudar um pouco. Em vez do ramo de oliveira, colocamos um galho de macieira, jĂĄ que os Ramones eram tĂŁo americanos quanto torta de maçã. E como Johnny era um grande fĂŁ de baseball, fizemos a ĂĄguia segurar um bastĂŁo de baseball em vez das flechas do selo.”

Inicialmente, o pergaminho no bico da ĂĄguia dizia “Look out below” (“Cuidado lĂĄ embaixo”), mas logo foi alterado para “Hey ho, let’s go” apĂłs o lançamento de Blitzkrieg Bop. Quando esse brasĂŁo começou a aparecer em camisetas, as vendas dispararam — e continuam atĂ© hoje, quase quatro dĂ©cadas depois. É possĂ­vel que, sem Vega e sua criação, os Ramones teriam quebrado rapidamente.

É difĂ­cil exagerar a importĂąncia das vendas de camisolas para a sobrevivĂȘncia de uma banda. Nos anos 90, havia vĂĄrias bandas indie britĂąnicas chamadas pejorativamente de “T-shirt bands” porque parecia que sĂł vendiam camisolas. Elas criavam uma infinidade de designs inteligentes que eram adotados por pessoas que nem conheciam a banda. As camisolas se tornaram itens de moda, em vez de um sinal de apoio. Se vocĂȘ lembra de bandas como Inspiral Carpets com suas camisolas “Cool as
” e The Farm de Liverpool com designs psicodĂ©licos, sabe do que estou falando.

Mas a maior “T-shirt band” de todas foi Ned’s Atomic Dustbin. Em certo momento, eles tinham mais de 85 designs diferentes de camisolas. Algumas foram feitas em ediçÔes muito limitadas e se tornaram itens de colecionador. Mas a economia do rock estava contra eles, e nĂŁo importava quantas camisolas criassem, a banda acabou ficando sem dinheiro e declarou falĂȘncia. Quem sĂŁo os reis do merchandising? Tem que ser o KISS. Gene Simmons disse que existem mais de 7 mil produtos oficiais licenciados do KISS, de preservativos e caixĂ”es a kits de maquiagem e gnomos de jardim. Eles faturam milhĂ”es com isso.

Outra grande banda de merchandising Ă© Insane Clown Posse. Eles nĂŁo tĂȘm espaço nas rĂĄdios, mas seus fĂŁs — os Juggalos — compram todo tipo de produto ICP todos os anos. Hoje, o merchandising de bandas Ă© mais importante do que nunca devido Ă  queda nas vendas fĂ­sicas de mĂșsica. Se as pessoas nĂŁo compram CDs como antes, essa receita precisa vir de algum lugar. Em muitos casos, as vendas de produtos sĂŁo a diferença entre uma banda sobreviver financeiramente ou nĂŁo. Isso tambĂ©m explica por que esses produtos podem ser tĂŁo caros. Alguns pontos importantes: primeiro, a banda nĂŁo fica com todo o dinheiro das vendas nos shows. Normalmente hĂĄ um acordo com o local ou promotor que determina uma porcentagem da receita bruta — 10%, 15% ou 20%. A lĂłgica Ă© que, como a banda estĂĄ usando o espaço do local para gerar dinheiro, o local merece um “aluguel”, baseado nas vendas.

Segundo, antes as vendas de produtos eram domĂ­nio exclusivo da banda. Hoje, a maioria dos contratos de gravadora sĂŁo conhecidos como “360 deals”. Isso significa que, em troca de maior segurança financeira, a banda cede uma parte de todas as suas fontes de receita Ă  gravadora. EntĂŁo, alĂ©m de ganhar com a venda de discos, a gravadora tambĂ©m recebe parte das vendas de ingressos, publicaçÔes, licenças e merchandising.

Isso pode ser positivo, porque a gravadora tem incentivo para maximizar as oportunidades de merchandising. Se a gravadora ganha mais com camisetas, a banda tambĂ©m ganha mais. E, teoricamente, a banda pode se concentrar em fazer mĂșsica e se apresentar.

E hå também a questão da coleta de camisolas. Algumas dessas peças são vendidas por preços exorbitantes e são disputadas como obras de arte. Alguns exemplos:

  • Camisola de manga de beisebol do AC/DC de 1982: cerca de 350 dĂłlares.
  • Camisola usada por Johnny Cash: 5.000 dĂłlares.
  • Camisola da turnĂȘ Goats Head Soup dos Rolling Stones (1972): 10.000 dĂłlares.
  • Camisola “backstage pass” do Led Zeppelin do show de Knebworth (1979): 10.000 dĂłlares.
  • Uma das 30 cĂłpias conhecidas da camisola Run-DMC “My Adidas”: 13.000 dĂłlares.
  • Camisola usada por John Lennon em muitos shows, que dizia apenas “Home”: vendida em leilĂŁo por 16.400 dĂłlares.

Faz a gente pensar no que pode ter no nosso armĂĄrio, nĂŁo Ă©? Encontrei uma camiseta antiga da turnĂȘ do U2 de 1983, e hĂĄ ofertas de 300 dĂłlares por ela. Nada mal. Minha histĂłria favorita de merchandising: uma banda de black metal chamada Zeal & Ardor ofereceu aos fĂŁs a oportunidade de serem “marcados” — sim, “marcados”, como se faz com gado. O acordo era: receber a marca e ganhar produtos grĂĄtis. A banda nĂŁo esperava que alguĂ©m aceitasse, mas pelo menos oito pessoas participaram. Eles tinham um ferro de marcação e um bico Bunsen para aquecĂȘ-lo. Com certeza, foi um show que nunca esquecerĂŁo. Algo para Taylor Swift considerar na prĂłxima vez que sair em turnĂȘ.

By Alan Cross – Tradução CamĂ”es Radio