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Mulheres na Música: progresso, estagnação e as vozes que continuam a mudar a indústria

Written by on March 17, 2026

Um estudo recente da USC Annenberg Inclusion Initiative voltou a colocar em evidência uma realidade que a indústria musical conhece há décadas: apesar de avanços pontuais, a presença feminina continua longe de ser proporcional ao talento e ao impacto das mulheres na música.

O relatório “Inclusion in the Recording Studio” analisou o sucesso comercial na indústria musical norte-americana através das tabelas anuais da Billboard Hot 100 e das principais categorias dos Grammy Awards. As conclusões são claras: o progresso existe, mas estagnou — e em alguns casos está mesmo a regredir.

O retrato atual da indústria musical

De acordo com o estudo:

  • 36,1% dos artistas nas tabelas mais populares em 2025 são mulheres, praticamente o mesmo valor de 2024 (37,7%).
  • Em 2012 apenas 22,7% dos artistas eram mulheres — houve progresso, mas desde 2023 os números deixaram de crescer.
  • Apenas 14,5% dos compositores são mulheres, um número inferior aos 18,9% registados em 2024.
  • Na produção musical, a desigualdade é ainda mais evidente: apenas 4,4% dos produtores são mulheres.

Ou seja, enquanto a presença feminina no palco aumentou lentamente ao longo da última década, nos bastidores da criação musical — composição e produção — a desigualdade permanece estrutural.

A autora do estudo, Stacy L. Smith, alerta para uma tendência preocupante que também se observa no cinema e noutras áreas do entretenimento:

“2025 mostrou retrocessos para mulheres realizadoras, menos protagonistas femininas no cinema e agora menos mulheres no topo das tabelas musicais.”

Segundo Smith, iniciativas simbólicas não são suficientes:

“Se a indústria quer realmente mudar estes números, a solução é simples: trabalhar com mulheres.”

Diversidade racial cresce mas não resolve o problema

O estudo mostra um dado positivo: 57,8% dos artistas de sucesso pertencem a grupos raciais ou étnicos sub-representados, um crescimento significativo face aos 38,4% registados em 2012. No entanto, quando se analisam os papéis de compositoras e produtoras, especialmente entre mulheres racializadas, a representação continua extremamente baixa. Isto revela um problema estrutural: as mulheres podem alcançar visibilidade como intérpretes, mas o acesso às posições de decisão criativa continua limitado.

O poder feminino na música portuguesa

Em Portugal, o cenário é particularmente rico e diverso. As mulheres têm sido fundamentais na renovação da música portuguesa, cruzando tradição com inovação, identidade com globalização.

Artistas portuguesas em destaque

Nova geração e inovação

  • Ana Lua Caiano – mistura tradição portuguesa com eletrónica contemporânea
  • Capicua – uma das vozes mais relevantes do hip-hop nacional
  • Carolina Deslandes – pop emocional com forte ligação ao público
  • MARO – projeção internacional e sonoridade intimista
  • Bárbara Tinoco – nova voz do pop português

Fado e tradição reinventada

  • Mariza – uma das maiores vozes do fado contemporâneo
  • Ana Moura – ponte entre tradição e modernidade
  • Carminho – elegância e inovação no fado
  • Gisela João – intensidade e autenticidade

Alternativo e fusão

  • Cláudia Pascoal – irreverência e identidade artística
  • Isaura – composição e produção com assinatura própria
  • A Garota Não – intervenção social e poesia contemporânea

Estas artistas mostram que Portugal não é apenas um país de tradição musical é também um laboratório criativo onde as mulheres têm um papel central.

A mudança começa nos bastidores

Apesar do talento e da visibilidade, o grande desafio mantém-se: garantir que mais mulheres sejam também compositoras, produtoras e decisoras. Artistas como Ana Lua Caiano, Isaura ou Capicua já mostram esse caminho, onde a voz feminina não é apenas interpretada, mas também criada e construída de raiz.

As mulheres que dominam a música atual

Apesar dos obstáculos estruturais, muitas artistas estão a redefinir o panorama musical global. São compositoras, produtoras, performers e criadoras de tendências culturais.

Principais mulheres na música atual

Pop e mainstream

  • Taylor Swift
  • Billie Eilish
  • Olivia Rodrigo
  • Dua Lipa
  • Ariana Grande

R&B e Soul

Hip-Hop

  • Nicki Minaj
  • Doja Cat
  • Megan Thee Stallion

Indie / Alternative

  • Phoebe Bridgers
  • Gracie Abrams
  • Lana Del Rey

Música latina

  • Karol G
  • Rosalía
  • Shakira

Estas artistas não só lideram vendas e streaming como influenciam estética, moda, linguagem cultural e até debates sociais.

Playlists essenciais para descobrir mulheres na música

Para quem quer explorar mais música feita por mulheres, várias plataformas de streaming criaram playlists dedicadas.

Spotify

Na Spotify existem playlists importantes como:

Estas playlists promovem artistas emergentes e estabelecidas de diferentes géneros.

Apple Music

Apple Music destaca artistas femininas em listas como:

  • Women Who Rock
  • Today’s Hits: Women
  • Future Hits (Female Artists)

YouTube Music

No YouTube Music é possível encontrar playlists editoriais como:

  • Women of R&B
  • Women in Hip Hop
  • Rising Women Artists

Mulheres que também produzem e compõem

Algumas artistas estão a mudar o paradigma ao assumirem também o controlo criativo da produção.

Exemplos importantes incluem:

  • Billie Eilish (produção em colaboração com Finneas)
  • Grimes (produção e composição próprias)
  • Rosalía (participação ativa na produção)
  • Taylor Swift (composição e produção executiva)

Estas artistas representam uma tendência crescente: mulheres que não apenas interpretam música, mas que também controlam o processo criativo.

O futuro da igualdade na música

A história da música mostra que as mulheres sempre estiveram presentes, mesmo quando a indústria não lhes dava o devido reconhecimento. Hoje, o desafio não é apenas aumentar a visibilidade das artistas, mas abrir espaço real nos bastidores da criação musical — na produção, na composição, nas editoras e na liderança da indústria. A música continua a ser um dos espelhos mais claros da sociedade. E se a indústria quiser refletir verdadeiramente o mundo atual, terá de fazer aquilo que o estudo sugere de forma direta: dar mais espaço às mulheres para criar, produzir e liderar.

 

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