Jay Kay, dos Jamiroquai: a história portuguesa que poucos conhecem
Written by Fabiane Azevedo on September 8, 2026

Jay Kay – Foto: Purple PR Nicky Kelvin
Poucos sabem que por detrás de uma das vozes mais reconhecidas da música britânica está uma história profundamente ligada a Portugal. Luís Waddington, guitarrista de uma das formações marcantes da música portuguesa dos anos 60, é o pai de Jay Kay, vocalista e líder dos Jamiroquai. Uma ligação familiar que atravessa gerações, países e estilos musicais do Portugal dos conjuntos modernos ao funk, acid jazz e disco que conquistaram o mundo.
Há histórias na música que parecem demasiado improváveis para serem verdade. Esta é uma delas. De um lado, está Luís Waddington, músico português que integrou o universo do Conjunto Mistério e de outras formações da música ligeira portuguesa numa época em que os chamados “conjuntos modernos” começavam a transformar profundamente o panorama musical nacional.
Do outro, décadas mais tarde, está o seu filho, Jason Luís Cheetham, conhecido mundialmente como Jay Kay, o carismático vocalista dos Jamiroquai, banda que se tornou uma das grandes referências internacionais do acid jazz, do funk e da música de dança. A história dos dois cruza Portugal, Inglaterra, música, família e até um dos momentos mais curiosos da recente passagem de Jay Kay pelo país.
Uma história que começa em Portugal
Antes de os Jamiroquai existirem, antes de *Virtual Insanity* se tornar um fenómeno mundial e muito antes de Jay Kay se transformar numa das figuras mais reconhecíveis da música britânica, Luís Waddington já fazia parte da história da música portuguesa.
Waddington esteve ligado ao Conjunto Nova Onda, formação que esteve na origem do Conjunto Mistério. O grupo surgiu no início dos anos 60, numa época em que Portugal assistia ao aparecimento de centenas de pequenos conjuntos influenciados pelo rock, pelo pop e, sobretudo, pelos The Shadows.
O percurso dessa geração é particularmente interessante porque muitos dos músicos que passaram por essas formações acabariam por desempenhar papéis importantes na música portuguesa das décadas seguintes. Entre eles estava Edmundo Silva, que viria a integrar os Sheiks. O próprio percurso do Conjunto Mistério cruzou-se com músicos que mais tarde se tornariam referências da música portuguesa.
O Conjunto Mistério chegou inclusivamente a viajar até Londres em 1963, depois de vencer um concurso inspirado nos Shadows. A viagem permitiu ao grupo conhecer músicos dos próprios Shadows e atuar perante a comunidade portuguesa, jornalistas e representantes diplomáticos. Era uma época em que a música portuguesa começava a olhar cada vez mais para o que acontecia além-fronteiras. E Luís Waddington estava lá.
Do Conjunto Mistério a Fernando Tordo
O percurso de Waddington não terminou com o Conjunto Mistério. Anos mais tarde, o músico continuaria ligado a importantes projetos da música portuguesa. Um dos momentos mais relevantes aconteceria em 1973, quando integrou a formação musical que acompanhou Fernando Tordo no Festival Eurovisão da Canção, no Luxemburgo.
Tordo apresentou “Tourada”, uma canção com música de Fernando Tordo e letra de José Carlos Ary dos Santos, que acabaria por conquistar o 10.º lugar entre 17 participantes. Luís Waddington fazia parte dos músicos que acompanharam o cantor, juntamente com Jaime Queimado e Vítor Mamede. A própria RTP preserva imagens da partida da delegação portuguesa para o Luxemburgo e identifica Luís Waddington entre os músicos que acompanharam Fernando Tordo.
É um detalhe particularmente interessante nesta história: o pai de Jay Kay não foi apenas um músico de uma geração esquecida. Fez parte de momentos importantes da música portuguesa e esteve ligado a artistas que marcaram diferentes períodos da cultura musical nacional.

Jay Kay. DR.
E depois veio Jay Kay
Em 1969, em Manchester, nasceu Jason Luís Cheetham. O mundo viria a conhecê-lo como Jay Kay. Filho da cantora e personalidade televisiva britânica Karen Kay e de Luís Waddington, Jay Kay cresceu sem uma presença próxima do pai durante grande parte da infância. A relação entre ambos acabaria por ganhar uma nova dimensão muitos anos depois.
A história familiar tornou-se particularmente conhecida em Portugal depois da chegada dos Jamiroquai ao país. A banda estreou-se em Portugal em 2002, no então Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Mas seria no ano seguinte, durante a participação dos Jamiroquai no Festival Sudoeste, que Jay Kay e Luís Waddington acabariam por se encontrar pessoalmente.
O encontro aconteceu décadas depois de Waddington ter regressado a Portugal. E, de repente, a história de uma família separada por países e pelo tempo cruzava-se com a história de uma das maiores bandas britânicas da sua geração.
Cascais: o regresso a uma espécie de “casa”
Mais de duas décadas depois daquele encontro, Jay Kay voltou a Portugal. A 18 de julho de 2026, os Jamiroquai atuaram no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, no âmbito do Ageas Cooljazz. Foi a estreia da banda no festival e uma das noites mais aguardadas da edição de 2026. Mas o concerto ganhou uma dimensão especial quando Jay Kay decidiu falar sobre a sua ligação pessoal a Cascais.
Durante o espetáculo, contou ao público que tinha falado com a mãe naquela manhã e que, quando lhe disse que estava em Cascais, ela lhe respondeu que aquele era o lugar onde ele tinha sido concebido. “Fui feito em Cascais”, contou, em tom de humor, provocando uma enorme reação entre o público.
A história foi relatada por vários meios de comunicação portugueses que acompanharam o concerto. Jay Kay falou também do pai e revelou que Luís Waddington estava presente no recinto. É difícil imaginar uma coincidência mais cinematográfica: o filho de um músico português regressar décadas depois ao país do pai e, precisamente em Cascais, contar ao público uma história íntima sobre as suas próprias origens.
A música como herança
A ligação musical entre pai e filho não deve ser interpretada simplesmente como uma relação de causa e efeito. Jay Kay construiu uma identidade artística própria. Quando os Jamiroquai surgiram no início dos anos 90, trouxeram para o panorama internacional uma mistura singular de funk, soul, jazz, disco e música eletrónica. O primeiro álbum, *Emergency on Planet Earth*, surgiu em 1993 e rapidamente colocou a banda no centro do movimento acid jazz britânico.
Ao longo das décadas, os Jamiroquai venderam dezenas de milhões de discos e transformaram Jay Kay numa figura mundial da música. O seu estilo vocal, a presença em palco, os chapéus extravagantes, a paixão pelos automóveis e, sobretudo, a capacidade de transformar grooves sofisticados em grandes êxitos populares fizeram da banda um fenómeno muito além das fronteiras do Reino Unido. E entre os seus maiores sucessos estão músicas que continuam perfeitamente reconhecíveis por várias gerações.
“Virtual Insanity”
Um dos vídeos mais icónicos da década de 1990, *Virtual Insanity* tornou-se praticamente inseparável da imagem de Jay Kay. O videoclip oficial continua disponível no canal oficial dos Jamiroquai.
“Cosmic Girl”
Lançado em 1996, *Cosmic Girl* mostrou outra faceta dos Jamiroquai e tornou-se um dos temas mais populares da banda. O videoclip oficial acompanha Jay Kay numa viagem visual tão extravagante quanto a própria música.
Uma banda que continua a olhar para o futuro
O regresso aos palcos aconteceu com a The Heels of Steel Tour, a primeira grande digressão dos Jamiroquai depois de vários anos afastados das grandes tours. A digressão europeia passou por várias cidades e festivais e terminou a etapa europeia em Cascais, a 18 de julho de 2026. O alinhamento combinou clássicos com novas canções que apontam para o próximo capítulo da banda. Entre as novidades apresentadas estão “Shadow in the Night” e “Disco Stays the Same”, temas associados ao próximo álbum de estúdio dos Jamiroquai.
No concerto de Cascais, o público ouviu precisamente essa combinação entre passado e futuro: Space Cowboy, Alright, Travelling Without Moving, Canned Heat, Cosmic Girl, Love Foolosophy e Virtual Insanity, lado a lado com material novo.
Onde ver os Jamiroquai em 2026
Depois da passagem por Portugal, a agenda internacional dos Jamiroquai continua.
Próximas datas anunciadas em 2026:
- 11 de setembro — Rio de Janeiro, Brasil — Rock in Rio, Cidade do Rock
- 19 de setembro — Bogotá, Colômbia — Coliseo MedPlus.
As datas e informações de bilheteira podem sofrer alterações, pelo que é recomendável confirmar sempre a agenda oficial antes da deslocação. A Ticketmaster Canada e a Live Nation listam atualmente estas próximas apresentações internacionais.
Agenda e concertos dos Jamiroquai — Live Nation
Bilhetes e datas dos Jamiroquai — Ticketmaster Canada
Uma ponte entre duas gerações
Talvez a parte mais fascinante desta história seja perceber que ela não é apenas sobre Jay Kay. É também sobre Luís Waddington. Sobre uma geração de músicos portugueses que, nos anos 60, começou a experimentar novos sons, novas influências e novas formas de tocar. Uma geração que conheceu os Shadows, os Beatles, o rock, o pop e a música internacional e que ajudou a preparar o terreno para aquilo que viria depois. Waddington pertenceu a esse momento.
E décadas mais tarde, o seu filho acabaria por fazer algo semelhante à escala global: pegar em diferentes influências musicais funk, soul, jazz, disco e eletrónica e transformá-las numa linguagem própria. É impossível dizer até que ponto existe uma herança musical direta.
Mas existe, sem dúvida, uma coincidência extraordinária.O pai tocava guitarra em Portugal numa época de transformação da música portuguesa. O filho tornou-se uma das grandes figuras internacionais do groove e do funk contemporâneo. E, pelo caminho, Portugal nunca deixou de fazer parte dessa história.
Desde o primeiro concerto em Lisboa, em 2002, passando pelo reencontro com o pai no Sudoeste, em 2003, até à noite de Cascais em 2026, a relação de Jay Kay com o país foi ganhando novos capítulos. No fundo, a história dos Jamiroquai e de Jay Kay em Portugal é também uma história sobre memória.
Sobre um músico português que atravessou uma geração. Sobre um filho que conquistou o mundo. E sobre uma ligação familiar que, muitos anos depois, voltou a encontrar-se no lugar onde tudo, de certa forma, começou. Do Conjunto Mistério aos Jamiroquai. De Lisboa a Manchester. De Luís Waddington a Jay Kay. Uma história portuguesa escondida por detrás de um dos maiores nomes da música internacional.
MDC Media Group/Camões Rádio