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Quem foi realmente Zé Pedro quando as luzes do palco se apagavam?

Written by on August 18, 2026

Zé Pedro. (DR.)

Há artistas que fazem parte da história da música. E há outros que, de alguma forma, passam a fazer parte da história das pessoas. Zé Pedro foi um desses casos.

Durante décadas, esteve com a guitarra ao ombro, em cima de palcos, em estúdios, em festivais e nos grandes momentos dos Xutos & Pontapés. Foi um dos fundadores da banda que ajudou a transformar o rock português numa linguagem reconhecida por várias gerações. Mas reduzir Zé Pedro à guitarra, aos Xutos ou aos grandes concertos é deixar de fora uma parte essencial da sua história. Porque, por trás do músico, existia um homem.

Um homem de sorriso fácil, de enorme capacidade de criar amizades, apaixonado pela música e pelas pessoas, mas também alguém que conheceu os excessos, enfrentou momentos difíceis, lutou contra as suas próprias fragilidades e encontrou, ao longo da vida, formas de se reconstruir. Alguém que conheceu a fama sem nunca parecer completamente confortável com a distância que ela poderia criar entre um artista e o público.

Quem conviveu com Zé Pedro fala frequentemente da sua proximidade, da generosidade, do sentido de humor e da facilidade com que fazia os outros sentirem-se à vontade. Para milhares de fãs, era o guitarrista dos Xutos & Pontapés. Para quem teve a oportunidade de o conhecer longe dos palcos, era simplesmente o Zé.

A sua história começa muito antes dos grandes êxitos, dos discos de platina e dos estádios cheios. Começa num Portugal que ainda estava a descobrir novas formas de expressão, numa juventude inquieta e numa paixão por uma música que chegava carregada de irreverência, liberdade e vontade de romper com o estabelecido.

Foi nesse contexto que nasceu o músico. Mas foi nas relações, nas escolhas, nos erros, nas amizades, nas dificuldades e nas pequenas histórias de bastidores que se revelou o homem.

Quem foi, afinal, Zé Pedro quando as luzes se apagavam?

É essa história  para lá da guitarra, da fama e do mito  que queremos recordar. Não criar apenas uma biografia cronológica. Construir uma narrativa que permita ao leitor conhecer a personalidade, as relações, as paixões, as fragilidades, os sonhos e as contradições de Zé Pedro. Explorar o percurso de uma pessoa que se tornou um símbolo do rock português sem nunca perder uma imagem de proximidade, simplicidade e humanidade.

Zé Pedro: o homem por trás da guitarra, dos Xutos & Pontapés e do mito

Há artistas que fazem parte da história da música. E há outros que, de alguma forma, passam a fazer parte da história das pessoas. Zé Pedro foi um desses casos.

Durante quase quatro décadas, esteve com a guitarra ao ombro, em palcos, festivais, estúdios e ensaios, como um dos rostos mais reconhecíveis dos Xutos & Pontapés. Foi fundador de uma das bandas mais importantes e duradouras da música portuguesa e ajudou a construir uma linguagem rock que atravessou gerações.

Mas contar a história de Zé Pedro apenas através dos Xutos & Pontapés é contar apenas uma parte. Porque, por trás do guitarrista, existia um homem.

Um homem com uma infância marcada por mudanças, uma curiosidade quase inquieta, uma paixão precoce pela música, uma personalidade expansiva, amizades, excessos, fragilidades, doenças graves e uma extraordinária capacidade de continuar. Alguém que conheceu momentos de queda e de reconstrução e que, mesmo depois de se tornar uma figura incontornável do rock português, conservou uma característica que muitos dos que com ele se cruzaram recordavam: a proximidade. Talvez seja por isso que, tantos anos depois da sua morte, a pergunta continue a fazer sentido:

Quem foi realmente Zé Pedro quando as luzes do palco se apagavam?

Antes dos Xutos, havia o Zé

José Pedro Amaro dos Santos Reis nasceu em Lisboa, a 14 de setembro de 1956, numa família numerosa. O pai era militar e a profissão obrigou a família a viver diferentes experiências e lugares. Durante a infância, Zé Pedro passou alguns anos em Timor, uma experiência que mais tarde recordaria como particularmente marcante.

As memórias que deixou desse período ajudam a perceber uma característica que o acompanharia pela vida: a curiosidade. Em Timor, recordava as explorações, os animais, as aventuras e a descoberta de um mundo muito diferente daquele que viria a encontrar em Lisboa. A própria viagem de regresso a Portugal ficou gravada na sua memória como uma experiência de descoberta. (Renascença) Depois veio Lisboa, os Olivais e uma adolescência em que a música começou progressivamente a ocupar um lugar central.

Não foi, porém, uma paixão construída de um dia para o outro. Zé Pedro cresceu a ouvir música, a descobrir bandas e a frequentar ambientes onde os concertos tinham um papel importante. Numa entrevista recuperada após a sua morte, recordava as festas de finalistas e os convívios em que as bandas tocavam, muitas vezes versões de grupos que serviam de referência para os jovens músicos. (Máquina de Escrever). Era o início de uma relação que acabaria por transformar a sua vida.

1977: o momento em que tudo mudou

Há momentos que parecem pequenos quando acontecem, mas que, vistos à distância, dividem uma vida em duas partes. Para Zé Pedro, um desses momentos aconteceu em França. Durante uma viagem pela Europa, em 1977, foi ao festival punk de Mont-de-Marsan. Kalú, que viria também a integrar os Xutos & Pontapés, estava igualmente no festival, embora os dois ainda não se conhecessem. A experiência foi decisiva.

A própria biografia oficial dos Xutos & Pontapés identifica essa viagem como o momento em que Zé Pedro e Kalú ficaram contagiados pelo universo punk. Anos mais tarde, Zé Pedro descreveu aquela experiência como uma espécie de descoberta do seu caminho. (Xutos & Pontapés)

O punk oferecia algo que ia muito além da música. Era atitude. Era liberdade. Era irreverência. Era a possibilidade de criar sem esperar pela autorização de ninguém. E talvez tenha sido precisamente isso que Zé Pedro reconheceu naquele movimento: uma forma de estar.

Mais tarde, numa entrevista, definiria o rock’n’roll não simplesmente como um género musical, mas como um estado de espírito, associado à aventura, à realização pessoal e a uma vida vivida intensamente. (Diário de Notícias) Essa ideia ajuda a compreender o homem que viria a ser.

A garagem onde começou uma história

De regresso a Portugal, Zé Pedro aproximou-se dos Faíscas e disponibilizou a garagem dos pais, nos Olivais, para servir de sala de ensaios. É fácil olhar hoje para os Xutos & Pontapés como uma instituição do rock português. Mas nada disso existia naquele momento. Havia jovens, instrumentos, ideias, ensaios e vontade de fazer barulho.

A história começou com diferentes formações, nomes e experiências até chegar aos Xutos & Pontapés. Zé Pedro, Zé Leonel e Paulo Borges estiveram na génese do grupo; Kalú juntou-se depois e Tim completou a formação inicial. O primeiro ensaio oficial aconteceu em dezembro de 1978, e a estreia em palco chegaria em janeiro de 1979. (Xutos & Pontapés)

O mais curioso é que, naquela altura, ninguém poderia saber o que estava a começar. Não havia garantias de sucesso. Não havia uma indústria à espera deles. Não havia a certeza de que aquela banda sobreviveria sequer alguns anos. Havia apenas a convicção de que tinham de tocar. E Zé Pedro estava no centro dessa vontade.

Mais do que guitarrista, um construtor

Quando se fala de Zé Pedro, a palavra mais imediata é “guitarrista”. Mas a sua importância nos Xutos & Pontapés foi maior do que a função que desempenhava no palco. Ele foi fundador, dinamizador, elemento agregador e uma das figuras que ajudaram a manter a identidade da banda ao longo de décadas. Os Xutos atravessaram mudanças profundas na sociedade portuguesa, transformações na indústria musical, diferentes gerações de público e inúmeras mudanças no panorama cultural. E continuaram.

A própria banda descreve a sua relação com o público como uma ligação construída ao longo de gerações, com canções que passaram a fazer parte da vida coletiva dos portugueses. (Xutos & Pontapés) Nesse percurso, Zé Pedro tornou-se muito mais do que um músico. Tornou-se uma presença. Uma pessoa que o público reconhecia quase como se fizesse parte da família.

Quando o palco acabava

É aqui que começa a história mais interessante. Porque o Zé Pedro dos palcos era apenas uma parte do Zé Pedro. Muitas das memórias deixadas por pessoas que trabalharam com ele ou simplesmente se cruzaram no seu caminho repetem uma ideia: era acessível.

Uma reportagem da NiT, publicada no dia da sua morte, recordava precisamente essa característica. Zé Pedro tinha sido o primeiro entrevistado da publicação e apareceu na redação com a sua primeira Fender debaixo do braço. Atendia telefonemas, aceitava ajudar e, quando reencontrava pessoas com quem tinha falado meses ou anos antes, mantinha a mesma proximidade. (NiT)

É um detalhe aparentemente pequeno. Mas talvez diga muito. A fama costuma criar distância. Zé Pedro parecia fazer o contrário. A guitarra podia estar no palco, mas a pessoa permanecia acessível no chão. Um relato publicado após a sua morte fala precisamente do seu sorriso e da surpresa de encontrar uma figura do rock com uma personalidade tão doce. (musicfest.pt) Essa imagem contrasta com o estereótipo do rock’n’roll. E talvez seja precisamente aí que esteja uma parte importante do seu encanto.

O homem das amizades

Zé Pedro parecia ter uma capacidade particular para criar relações. Não apenas com grandes músicos ou figuras conhecidas, mas também com pessoas que estavam a começar. Ao longo dos anos, participou em diferentes projetos para além dos Xutos & Pontapés. Passou pelos Palma’s Gang, Maduros e Ladrões do Tempo, entre outras colaborações. Foi DJ e teve também presença na rádio, mantendo uma ligação permanente ao universo musical. (AbrilAbril)

Essa necessidade de estar perto da música nunca desapareceu. Não parecia interessado em ficar fechado dentro da história dos Xutos. Queria descobrir, ouvir, experimentar, conversar.A música, para ele, não era apenas uma carreira. Era uma comunidade.

Os excessos e a parte que não aparece nas fotografias

Mas nenhuma história humana é feita apenas de luz. A de Zé Pedro também teve períodos difíceis.  O próprio músico falou publicamente sobre os consumos de álcool, drogas e tabaco e sobre o momento em que decidiu parar. Em 2001, descobriu que tinha hepatite C, depois de um período particularmente complicado da sua vida. Uma hemorragia grave levou-o ao hospital e colocou a sua vida em risco. (NiT)

É importante contar esta parte sem transformar a doença ou os excessos em espetáculo. Porque Zé Pedro não ficou definido por eles. Pelo contrário. Uma das características mais marcantes da sua história é a capacidade de falar sobre aquilo que viveu sem esconder completamente as suas fragilidades. A recuperação tornou-se parte da sua história. E a música continuou a ser uma espécie de lugar de regresso.

Quando a vida lhe deu uma segunda oportunidade

Em 2011, Zé Pedro foi submetido a um transplante de fígado. O problema de saúde tinha sido sério e o afastamento dos palcos foi inevitável. Mas o músico queria regressar. Queria tocar. Queria continuar.

Relatos sobre esse período mostram precisamente essa determinação. Depois do transplante, procurou recuperar rapidamente e voltar aos concertos dos Xutos & Pontapés. (NiT) Há algo profundamente revelador nessa atitude. Para algumas pessoas, sobreviver seria suficiente.

Para Zé Pedro, sobreviver significava também recuperar a possibilidade de fazer aquilo que amava. A guitarra não era apenas um instrumento. Era uma parte da sua identidade.

Zé Pedro. (DR.)

O rock como forma de viver

Talvez por isso a sua definição de rock’n’roll seja tão importante para compreender a sua personalidade. Zé Pedro não via o rock apenas como música. Via-o como um estado de espírito, uma forma de aventura e de realização pessoal. (Diário de Notícias)

Essa ideia atravessa a sua vida.

Está na viagem a França.

Está na garagem dos Olivais.

Está nos primeiros concertos.

Está nos Xutos.

Está nos excessos.

Está na recuperação.

Está na vontade de voltar ao palco.

O rock, para Zé Pedro, parecia significar não ficar parado. Mesmo quando a vida o obrigava a parar, havia sempre uma vontade de regressar.

A família por trás do músico

Por trás da figura pública existia também uma família. Zé Pedro cresceu numa família de sete irmãos, numa casa marcada pela profissão militar do pai e pelas constantes mudanças. A sua irmã Helena Reis recuperou parte dessas memórias na biografia Não Sou o Único, publicada em 2007. (Record)

Essas histórias familiares ajudam a afastar a imagem do músico como alguém que apareceu simplesmente pronto para o palco. Antes da guitarra havia uma criança. Antes dos Xutos havia uma família. Antes do mito havia um rapaz que cresceu, mudou de lugares, descobriu cidades, música, amizades e diferentes formas de olhar para o mundo.

Talvez seja precisamente essa dimensão familiar que torne o personagem mais completo. Zé Pedro não nasceu lenda. Tornou-se Zé Pedro.

O homem que não parecia querer ser uma estrela

Existe uma contradição interessante na sua figura. Zé Pedro tornou-se famoso sem parecer construir a sua personalidade em torno da fama. Mesmo depois de décadas de carreira, continuava a transmitir uma sensação de proximidade.

Era possível encontrá-lo numa entrevista e perceber que não precisava de construir uma personagem. A pessoa e o músico pareciam coexistir. Talvez por isso tenha sido tão fácil para o público criar uma relação afetiva com ele. As pessoas não admiravam apenas o guitarrista. Gostavam do homem.

O último palco

Em 4 de novembro de 2017, Zé Pedro subiu pela última vez ao palco com os Xutos & Pontapés, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. A sua saúde estava fragilizada. A banda já sabia que atravessava uma fase delicada e procurou adaptar o concerto às suas condições. (Diário de Notícias) Mas ele esteve lá.

Até ao fim. Depois do concerto, deixou uma mensagem de agradecimento ao público. Agradeceu a quem tinha gritado o seu nome e reconheceu que aquela energia lhe tinha dado força para permanecer no palco. (Diário de Notícias) É difícil imaginar um final mais simbólico para a sua relação com o público. Durante quase 40 anos, aquelas pessoas tinham cantado com ele. Naquela noite, cantaram também por ele.

30 de novembro de 2017

Zé Pedro morreu em Lisboa, em casa, a 30 de novembro de 2017. Tinha 61 anos. A notícia provocou uma onda de reação muito para além do universo do rock. Músicos, artistas, clubes, instituições e milhares de fãs despediram-se de uma figura que já tinha ultrapassado há muito a dimensão de uma banda. (RTP) Morreu o guitarrista dos Xutos & Pontapés.

Mas morreu também uma figura que, para muitos portugueses, estava associada a memórias pessoais: o primeiro concerto, a primeira guitarra, uma adolescência, uma viagem, uma festa, um amor, uma época da vida. É isso que acontece quando um músico deixa de ser apenas músico. As suas canções passam a viver dentro das pessoas.

O que ficou?

Os Xutos & Pontapés ficaram. As músicas ficaram. Os concertos ficaram. As fotografias ficaram. As histórias ficaram. Mas o legado de Zé Pedro não se mede apenas pela quantidade de discos ou pela longevidade da banda. Mede-se também pela forma como conseguiu atravessar diferentes gerações sem perder relevância.

Uma criança podia ouvir Xutos com os pais. Anos depois, levar os próprios filhos a um concerto. Esse é um tipo de legado que não aparece facilmente nas estatísticas. É memória coletiva. A própria história dos Xutos & Pontapés é descrita pela banda como uma história de canções que passaram a fazer parte da vida de várias gerações. (Xutos & Pontapés) E Zé Pedro estava lá desde o princípio.

Então, quem era Zé Pedro?

Talvez não seja possível responder completamente. E talvez essa seja precisamente a melhor resposta.

Zé Pedro foi guitarrista.

Foi fundador.

Foi músico, DJ, colaborador, radialista e apaixonado por rock.

Foi amigo, irmão, filho e companheiro.

Foi um homem que conheceu os excessos e a recuperação.

Foi alguém que enfrentou uma doença grave e recebeu uma segunda oportunidade.

Foi um homem que continuou a querer tocar quando o corpo já começava a dizer-lhe que não.

Foi uma figura pública que, paradoxalmente, conseguiu manter uma enorme sensação de intimidade com quem o conhecia. E foi, sobretudo, Zé Pedro. O homem que aparecia com uma guitarra ao ombro, mas que parecia nunca precisar dela para estabelecer uma ligação com as pessoas.

Quando as luzes se apagavam

No palco, Zé Pedro era uma das faces do rock português. Fora dele, talvez fosse simplesmente um homem curioso, apaixonado, imperfeito e inquieto.

Um homem que viveu intensamente.

Que errou.

Que caiu.

Que voltou.

Que teve medo.

Que teve amigos.

Que amou a música.

E que encontrou nela uma razão para continuar.

É por isso que, quando se recorda Zé Pedro, talvez não seja suficiente falar dos Xutos & Pontapés.

É preciso falar do sorriso.

Das amizades.

Da garagem.

Da viagem a França.

Das noites de música.

Das dificuldades.

Da recuperação.

Da guitarra.

E daquela relação quase inexplicável com o público. Porque a verdadeira história de Zé Pedro não está apenas nos grandes palcos. Está também nos bastidores. Está nos corredores depois dos concertos, nas conversas, nos encontros inesperados, nas pessoas que dizem que ele se lembrava delas, mesmo quando talvez já nem se lembrasse do seu nome.

Está naqueles pequenos momentos que não aparecem nas capas dos discos. Foi aí, provavelmente, que viveu o verdadeiro Zé Pedro.

Quando as luzes se apagavam, quando já não havia milhares de pessoas à sua frente e quando a guitarra descansava por alguns minutos, sobrava aquilo que nenhuma carreira consegue fabricar: uma pessoa. E talvez tenha sido essa pessoa  muito mais do que o mito  que fez de Zé Pedro uma das figuras mais queridas da história do rock português.

MDC Media Group/Camões Radio.