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Uma viagem ao tempo da ditadura

Written by on April 25, 2022

Ditadura Portugal BD - Camões Rádio - Portugal

Interesses políticos e económicos por detrás da queda de Goa numa das raras abordagens da BD portuguesa a uma guerra colonial.

1510. Uma expedição portuguesa comandada por Afonso de Albuquerque conquista Goa, o mais importante porto comercial da região.

1961. 40 mil soldados indianos invadem Goa, recuperando o pequeno estado para a União Indiana. O punhado de soldados portugueses presentes no local pouca resistência opôs, contrariando as ordens de Salazar. Portugal só reconheceu a perda do território após o 25 de Abril de 1974.

Poucas vezes explorada pela BD nacional, a guerra colonial nos diferentes territórios é matéria-prima muito rica para abordagens distintas de um período com o qual o país ainda parece ter dificuldade em lidar.

“Co.Br.A. Operação Goa”, acabado de editar pela Ala dos Livros, é raro exemplo. Escrito por Marco Calhorda, combina intriga política, interesses económicos e uma certa noção de patriotismo para narrar como, na sombra, foi orquestrado o abandono formal de Goa e repatriados os prisioneiros portugueses retidos em condições deploráveis.

Livremente baseado em factos reais, centra-se na figura de Jorge Jardim, um oportunista bem relacionado que viu no desmoronar de mais um elemento do império luso a oportunidade de expandir negócios em Moçambique. Intermediário não-oficial entre portugueses e indianos, à cabeça do Co.Br.A., uma espécie de comando formado pelos melhores especialistas em diferentes áreas, aproveitou para fazer expulsar alguns goeses de Moçambique, apoderando-se das empresas e das riquezas que possuíam.

Mostrando um Salazar mais uma vez a tentar dar-se bem com Deus e o Diabo, “Co.Br.A” recupera os momentos-chave de um processo moroso e complexo que várias vezes esteve para terminar num banho de sangue. O relato teria ganho em consistência com um maior aprofundamento de algumas situações e do carácter dos protagonistas e com a inclusão de momentos com mais ação para aproveitar as características do traço de Daniel Maia, facilmente associável aos super-heróis, nos quais já trabalhou.

Apesar de algumas hesitações nas primeiras pranchas, o desenhador acaba por conseguir um retrato de época muito credível, com o seu traço realista e um bom domínio da planificação a proporcionarem uma leitura ritmada e interessante de um episódio histórico pouco conhecido.

 

Fonte: JN


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