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A Celeste dos Cravos

Written by on April 25, 2024

Ilustração de Nuno Saraiva.

 

Celeste Martins Caeiro nasceu na Mouraria a 2 de maio de 1933 e está perto de fazer 91 anos. Reformada, ex-empregada de mesa e costureira, esta Grande Alfacinha realizou, sem querer, a maior obra-de-arte contemporânea nacional: pintou Lisboa e o país de cravos vermelho vivo (e alguns brancos).

Todos os grandes momentos da História são cantados por odes por vezes demasiado líricas ou desequilibradamente romanceadas. Um dos maiores mitos urbanos à volta do dia de 25 de Abril de 1974 está na origem dos cravos nos canos das espingardas dos soldados – a imagem de marca que sempre perdurará da revolução – episódio que durante alguns anos se atribuiu às floristas do Rossio personificadas em tágides que aclamam e inspiram os nossos guerreiros. Mas a verdadeira história é menos epopeica, mais simples embora mais rica.

Tudo começou num restaurante no edifício Franjinhas da rua Braamcamp com pinta de modernice chamado “Sir” que adotava o método do self-service e que já apostava em técnicas de marketing.

O dono tinha mandado comprar “toneladas” de cravos para oferecer aos clientes no dia 25 para celebrar o 1ºaniversário do estabelecimento e estava no impasse entre ter que fechar por causa de um Golpe de Estado e ter que deixar as flores estragarem-se armazenadas. Como era despachado, ofereceu um grande molho a cada empregado, entre os quais se encontrava Celeste, e assim não morriam em vão.

Celeste Caeiro regressou assim até à sua casa que ficava no Chiado, abraçada aos cravos. Percorreu a Avenida da Liberdade, atravessou o Rossio e subiu a rua do Carmo, entre uma multidão. Aí deparou-se com uma chaimite à esquina da rua Garrett. Celeste paralisa frente a um soldado de G3, com cara de muitos amigos e pergunta-lhe:

– “Para onde vão? O que vai acontecer?”

– “Vamos para o (largo do) Carmo prender o Marcelo (Caetano). Já agora, a menina não tem aí um cigarrinho?”

– “Cigarro não, que não fumo. Mas posso-lhe oferecer um cravo, tenho muitos!”

O resto da história é conhecido. O soldado enfia o caule da flor no cano da sua espingarda. O camarada do lado também quer e Celeste oferece-lhe outro. Por ela passam mais soldados, a cada um, um cravo. Um fotógrafo (seria o Eduardo Gageiro?). Outro fotógrafo (o Alfredo Cunha?). Quando se lhe esgotam os cravos, Celeste é imitada no gesto por gente na rua que corre a comprar nas floristas, que logo solidárias as oferecem.

Assim nasceu um quadro pintado a vermelho vivo (e algum branco) que perdurará para sempre na imagética da Revolução de Abril. E tudo por causa de uma manobra de marketing falhada num café da moda… e de um cigarro que não havia!

Esse texto é de Nuno Saraiva que esteve connosco a falar dos caminhos que a vida levou-te a iniciar a arte do “cartoon”.

 

Nuno Saraiva/Camões TV/MDC Media Group

 

Oiça a entrevista no link abaixo. Se preferir veja a entrevista na íntegra, clique aqui


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