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A origem do mito que deu fama à Lello e enganou milhares de fãs de Harry Potter

Written by on May 22, 2020

Há vários anos que fãs visitam a livraria portuense que aproveitou a fama inesperada e tirou o proveito.

 

Tudo batia certo. A estadia de J.K. Rowling no Porto, cinco anos antes do lançamento do primeiro livro da saga que se tornou um fenómeno global, criou as bases para o que haveria de se tornar num mito. Os trajes universitários que inspiraram as fardas dos alunos de Hogwarts, o ambiente requintado do Café Majestic onde a autora supostamente tomava café e, por fim, a jóia da coroa: a Livraria Lello, que por direito próprio conquistou um lugar nas listas das mais belas do mundo, terá ajudado à criação do mundo mágico de Harry Potter. Afinal, nada disso era verdade.

A confissão bombástica foi feita no Twitter de Rowling esta quinta-feira, 21 de maio, para surpresa, choque e estupefação de muitos fãs. O tema foi puxado por um fã que, ao lado de uma fotografia de um café que alegava ser “o berço de Harry Potter”, questionava se a alegação era verdadeira.

“Estou a pensar colocar uma secção no meu site oficial sobre os alegados berços e inspirações de Potter. Escrevi o Potter durante vários anos antes de colocar um pé neste café, portanto não é o berço, mas realmente escrevi lá, portanto vou deixar passar”, notou, antes de dar a estocada final.

Alguns minutos depois, Rowling partilhava uma publicação que falava de uma visita “à livraria de Harry Potter”, no Porto. “Por exemplo, nunca visitei esta livraria no Porto. Nem nunca soube da sua existência. É belíssima e quem me dera tê-la visitado, mas não tem qualquer relação com Hogwarts”.

 

 

O momento era o ideal para desmontar este e outros mitos que envolvem o tal momento mágico do nascimento de uma das sagas literárias mais bem-sucedidas em todo o mundo. “Se definem o local de ‘nascimento’ de Harry Potter como o momento em que tive a ideia inicial, então foi um comboio entre Manchester e Londres. Fico sempre entusiasmada com a ideia de que Hogwarts se inspirou diretamente em belos locais que vi ou visitei, porque isso está muito longe da verdade”, revelou, depois de explicar que a primeira vez que passou a primeira ideia para o papel foi num apartamento em Londres, na zona de Clapham Junction.

A revelação vem desmontar uma lenda que todos assumiam como uma espécie de verdade absoluta e indesmentível. No Twitter, os fãs mostraram-se desiludidos. Outros, atiraram-se à livraria, uns por causa dos valores cobrados à entrada, outros devido ao suposto marketing enganoso. “[A livraria] fazendo rios de dinheiro vendendo uma mentira”, critica uma fã brasileira. Houve até quem pedisse o dinheiro das entradas de volta.

 

Renascer à boleia de Harry Potter

Hoje, a Livraria Lello é um caso de sucesso na cidade. Não há quem nunca tenha reparado nas gigantescas filas que se acumulam à porta, na sua maioria turistas, muitos deles fãs da saga de Rowling, atraídos pela visão que terá inspirado o mundo mágico de Hogwarts.

Tal como muitas outras livrarias, e apesar de se tratar de um marco arquitetónico e cultural com mais de uma centena de anos de história, as dificuldades financeiras fizeram-se sentir. As despesas de conservação do espaço eram também significativas e foram uma das razões pelas quais, em 2015, os responsáveis — que nesse ano passaram a contar com um novo investidor e accionista maioritário — decidiram começar a cobrar entrada a todos os visitantes. A ideia havia sido lançada em 2013, quando apenas era cobrada uma taxa a grupos organizados.

“Antes uma casa que cobra à entrada do que uma casa fechada, o que não é o caso. É um estudo que tem que se pensar, porque alguém tem que pagar o desgaste desta casa”, revelava ao “Público” Antero Braga, um dos proprietários.

 

Dois anos depois, era instituído o pagamento obrigatório a todos os visitantes, que teriam que pagar três euros — um valor que pode ser deduzido na compra de um livro. No mês seguinte, perdeu cerca de mil visitantes por dia, mas passou a vender mais livros e, acima de tudo, começou a faturar mais de 10 mil euros por dia só com os valores das entradas, conforme relatava o “Jornal de Notícias”.

Por essa altura, já a história da vivência de Rowling pelas ruas do Porto circulava e dava mais força à ligação entre a Lello e o mundo mágico de Harry Potter. Os fãs, obcecados com tudo o que está relacionado com a saga, não se importavam de esperar na fila para conhecer a imponente escadaria vermelha e a decoração neo-gótica do edifício.

De forma indireta, a Lello foi investindo e reforçando esta conexão ao mundo criado por J.K. Rowling. A 4 de fevereiro de 2016, a Harry Potter Book Night levou dezenas de crianças e adolescentes mascaradas, recebidas por funcionários vestidos a rigor. “Estão preparadas leituras, feitiços, poções e muito mais. No fim da noite haverá prémios para os participantes mais originais que se vistam a rigor nesta noite temática”, revelava à data a comunicação oficial da livraria.

A alegada inspiração serviu, repetidamente, para atrair os fãs. Basta percorrer o feed da livraria no Facebook para encontrar inúmeras publicações que não só falam sobre a ligação Rowling-Harry Potter-Lello, como a reforçam.

De passatempos a francesinhas mágicas, a livraria aliou-se a espetáculos de magia e música inspirados nos livros, bem como a roteiros de locais que terão ajudado a construir o mundo de Potter na cabeça da autora, entre o Café Majestic, a Torre dos Clérigos e a própria Lello. O espaço chegou mesmo a ter uma réplica do carro de Harry.

“A escritora, que viveu no Porto nos anos 90 e se terá inspirado na arquitetura da Livraria Lello – local que frequentou, nessa altura, de forma assídua – para escrever a saga de Harry Potter”, pode ler-se no site oficial.

Relativamente à possível inspiração, Aurora Pinto da administração da Lello, revelava em 2019, em declarações à “Visão”, que talvez não fosse necessário ir até ao fundo da questão: “Para quê? Não é melhor, às vezes, viver uma lenda, uma ilusão, do que saber a verdade? Eu não tenho dúvidas de que quem aqui entra, fica a olhar para a escadaria e vê Hogwarts. Às vezes um mito vale mais do que mil verdades. Os livros também são ilusão, magia”.

Contactada pela revista nacional, a relações públicas da autora britânica esclareceu: “Tanto quanto sabemos, ela nunca disse que a livraria serviu de inspiração para algum lugar nos livros de Harry Potter”.

 

A origem do mito

Diz-se que as boas lendas têm sempre um fundo de verdade. E é verídico que J. K. Rowling morou no Porto entre 1991 e 1993, onde trabalhou como professora de inglês e casou com um jornalista português. Revelou, também recentemente, que se apaixonou pela cidade.

“Eu fiquei encantada pelo fado, a música tradicional portuguesa que reflete os próprios portugueses, que de acordo com a minha experiência têm uma calma e uma gentileza únicas entre os povos latinos que já conheci. As espetaculares pontes da cidade, as suas vertiginosas margens do rio, os edifícios antigos, as velhas casas do vinho do Porto, as largas praças: fiquei extasiada com tudo isto”, confessou ao “The Guardian” em outubro de 2019, sem fazer qualquer menção especial à Lello.

É igualmente verdade que a britânica roubou o nome de Salazar para o colar a uma das suas personagens. A inspiração, ao que parece, fica-se por aqui. E tudo o resto é especulação — alegações que, de tantas vezes repetidas, acabaram por ser assumidas como verdade absoluta pela maioria da imprensa nacional e internacional. Pelo menos até ao desmentido da autora.

As primeiras menções da Lello como base da Flourish e Blotts — a livraria onde Harry compra os seus livros de magia — surgem na Internet entre 2008 e 2009. Um ano antes, já o Café Majestic partilhava um artigo, já indisponível, que mencionava as visitas da autora ao famoso café da baixa portuense. Da Lello, nem sinal.

As menções disparam com a eleição da livraria pelo “The Guardian”, em 2008, como uma das mais belas do mundo. Em 2012, já o britânico “The Daily Mail” aproveitava um roteiro pelo norte para falar da reivindicação da cidade como um império de Harry Potter, à boleia do Café Majestic, ” local onde supostamente J. K. Rowling se sentava horas a fio, a escrevinhar o início dos livros de Potter”, e da “escadaria vermelha de madeira” da Lello. E contrariamente à livraria, foi a própria quem, no Twitter, confirmou, esta quinta-feira, 22 de maio, que pelo menos essa afirmação é verdadeira: Rowling chegou a escrever à mesa do café portuense.

“Se alegrar as pessoas que ficaram desapontadas com a questão da livraria do Porto, escrevi aqui algumas vezes. É provavelmente o café mais bonito onde escrevi. O Majestic Café na Rua de Santa Catarina”, escreveu.

 

 

Voltando à Lello, a mesma história foi-se repetindo em blogues, guias de viagens e até na imprensa tradicional: J.K. Rowling ficou fascinada com o ambiente da livraria e de lá roubou inspiração para muitos dos cenários da saga. Ao conto foram sempre sendo acrescentados detalhes mais ou menos pormenorizados.

Em 2015, o espanhol “ABC” falava até que na Lello se tornava difícil “conter as hordas de turistas”, desde que ali “se gravaram várias cenas dos filmes de ‘Harry Potter’” que, como se sabe, nunca aconteceu.

A história era bonita mas, segundo a própria, não passou de um cenário imaginado. Por quem? Esse é um mistério que vai ficar por resolver. E com ou sem os fãs do mágico, o mais provável é que as filas de gente à espera para ver a famosa escadaria continuem a ser longas.

 

 

Fonte: Daniel Vidal/ NIT.pt


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