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A história do avô luso-descendente de Sam Mendes que inspirou “1917”

Written by on January 24, 2020

Alfred Hubert Mendes combateu na Primeira Guerra Mundial e era familiar do realizador do filme nomeado para dez Óscares.

 

Quando Sam Mendes subiu ao palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, nos EUA, para receber os Globos de Ouro de Melhor Drama e Melhor Realizador, o cineasta britânico dedicou o seu “1917” ao avô, Alfred Hubert Mendes — e essa dedicatória também está presente na própria produção.

A história, passada em plena Primeira Guerra Mundial, é um dos filmes do ano e está nomeado para dez Óscares. No enredo, dois soldados britânicos, os cabos Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), têm como missão entregar uma ordem de um general a outro pelotão de combate, liderado pelo coronel MacKenzie, que está a algumas horas de distância.

Os alemães retiraram as suas tropas daquele território e MacKenzie prepara-se para atacar em força o exército germânico. O que ele não sabe é que a retirada estratégica foi uma armadilha e, portanto, há 1600 soldados britânicos que irão perder a vida caso MacKenzie siga os seus planos. Incluindo o irmão mais velho de Blake.

Acompanhamos passo a passo a travessia perigosa naquele território que já não pertence a ninguém — “1917” foi gravado como se se tratasse praticamente de um único plano de sequência, sem cortes nem alternância de câmaras e planos.

Apesar de relatar uma história fictícia, com personagens que não existiram na vida real, o guião baseia-se nas experiências que Alfred Hubert Mendes partilhou com o neto sobre a sua passagem pela Primeira Guerra Mundial.

Alfred era um soldado pequeno, rápido e ágil — e por isso mesmo era encarregue de ser mensageiro em muitas ocasiões. Tinha de atravessar quilómetros e quilómetros para entregar mensagens e ordens entre oficiais. Era comum que os alemães cortassem os cabos de telefone para impedir as comunicações, portanto as mensagens tinham de ser entregues em mão.

“A essência daquilo que ele me contou e a ideia central de um homem a transportar uma mensagem não saiu daqui”, contou Sam Mendes numa entrevista à revista americana “Deadline”.

“Ficou cá, durante os últimos 50 anos. Houve uma história particular que ele nos contou de receber a missão de entregar uma única mensagem através de um território que não pertencia a ninguém no pico do inverno de 1916. Ele era um homem pequeno e por isso não conseguiam vê-lo acima do nevoeiro. Foi essa a história que eu encontrei para contar”, contou noutra entrevista, desta vez à “NPR”.

Na primavera de 1917, houve realmente uma retirada estratégica alemã, com o objetivo de criarem uma nova (e melhor) linha defensiva. Era a Operação Alberich e o objetivo era consolidar as forças num novo local para depois realizar novos ataques. E, sim, tal como no filme, os alemães deixavam armadilhas para trás que seriam perigos enormes para os soldados dos Aliados. Sam Mendes misturou as experiências do avô com alguns factos históricos reais, inventando ainda novos elementos. Tudo isto junto resultou no enredo de “1917”.

No seu livro de memórias autobiográfico, Alfred Hubert Mendes — escrito nos anos 70, mas publicado apenas mais de dez anos depois da sua morte — conta como as suas histórias de guerra mantiveram entretidos durante anos os seus netos e bisnetos. Alfred era conhecido por ser um bom contador de histórias.

Quem era, afinal, Alfred Hubert Mendes?

O homem que foi essencial para que este filme acontecesse foi o avô de Sam Mendes. Alfred Hubert Mendes nasceu em 1897 — morreu em 1991, aos 93 anos — e era luso-descendente, como se pode suspeitar pelo apelido. O seu pai era Alfred Mendes e o avô era Francisco Mendes.

Francisco Mendes e Rose de Andrade, os trisavôs de Sam Mendes, eram madeirenses. Faziam parte da comunidade protestante presbiteriana do Funchal — liderada pelo escocês Robert Kalley — que foi perseguida durante o século XIX pela maioria católica. Em 1846, a casa dos Kalley foi incendiada e a sua família teve de fugir para os EUA.

Além de Robert Kalley, cerca de dois mil portugueses que pertenciam a esta minoria religiosa, como Francisco Mendes e a mulher, foram forçados a emigrar. O jornalista Ferreira Fernandes contou a sua história no livro “Madeirenses Errantes”, publicado em 2004. Os EUA, as Bermudas ou outros territórios das Caraíbas foram os principais destinos.

A família Mendes foi para Trindade e Tobago, onde, duas gerações depois, Alfred Hubert Mendes viria a nascer, em 1897. O seu pai, Alfred Mendes, foi um dos fundadores da organização local Portuguese Club e o seu primeiro presidente. Foi ainda vice-cônsul de Portugal em Trindade e Tobago entre 1931 e 1948.

Aos 15 anos, Alfred Hubert Mendes foi para o Reino Unido para continuar os seus estudos — na altura, Trindade e Tobago era uma colónia britânica. Passados dois anos estava a alistar-se no exército para lutar na Primeira Guerra Mundial. Serviu durante dois anos em vários territórios, sobretudo na Bélgica, e foi condecorado com uma medalha pelo serviço bem cumprido. Quando a guerra estava quase a terminar, Alfred acidentalmente inalou um gás alemão venenoso e teve de ser enviado para o Reino Unido para recuperar.

Depois da guerra, regressou a Trindade e Tobago, onde trabalhou na loja do pai. Alfred era há muito tempo um apaixonado pela literatura inglesa e foi também nessa fase que começou a escrever, tanto poesia como ficção. Começou também a integrar-se no meio literário e a publicar em revistas.

Em 1933, mudou-se para Nova Iorque, nos EUA, onde esteve até 1940. Queria seguir a carreira de escritor. Alguns dos seus livros mais conhecidos, que o tornaram uma referência na literatura caribenha, foram “Pitch Lake” (1934, com um prefácio escrito por Aldous Huxley) e “Black Fauns” (1935). O Prémio Nobel da Literatura em 1992, Derek Walcott, disse mesmo que Mendes era “o pai da literatura caribenha”.

Quando voltou a Trindade e Tobago, nos anos 40, pôs a escrita de lado e trabalhou como alto funcionário público nos serviços portuários. Foi ainda um dos fundadores do partido United Front, com inclinações socialistas, que concorreu às eleições pela primeira vez em 1946. Reformou-se em 1972, viveu em Maiorca e na Gran Canária, em Espanha, até voltar às Caraíbas para viver os seus últimos anos de vida nos Barbados, país vizinho de Trindade e Tobago.

Alfred casou três vezes — era conhecido por ser bastante mulherengo — e teve três filhos, incluindo o pai de Sam Mendes, Jameson Peter. Jameson Peter, que foi professor universitário, casou no Reino Unido com Valerie Barnett — autora de livros infantis — e tiveram, em 1965, o filho único Samuel Alexander Mendes. Divorciaram-se pouco tempo depois.

Quando questionado sobre o porquê de se ter alistado voluntariamente apenas com 17 anos para participar na Primeira Guerra Mundial, Alfred Hubert Mendes disse, segundo o jornal “Telegraph”, que se devia à sua “curiosidade insaciável”. “A história provou que a guerra é um facto da vida, por isso eu tinha de a experimentar. E tive sempre na minha mente a suspeita de que para alguém escrever histórias tem de viver também.”

 

 

Fonte: NIT.pt


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